Quero dizer, uma árvore nunca deixa de crescer e, consequentemente, nunca deixa de mudar, mas a sua orla rodeia sempre algo de imutável. Os anéis interiores da árvore são ainda os mesmos de quando era um rebento; deixaram de ser visíveis mas não deixaram de ser centrais. Quando lhe nasce um ramo lá em cima, não se separa das raízes no fundo; pelo contrário, quanto mais altos se tornam os seus ramos, mais precisa das raízes para se agarrar com força. É essa a verdadeira imagem do progresso vigoroso e saudável de um homem, de uma cidade ou de toda uma espécie.
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8 de janeiro de 2012
7 de janeiro de 2012
As chaves de São Pedro: desafios da Igreja Católica para o 3º Milénio da Encarnação
"Tu és Pedro, e sobre esta Pedra edificarei a minha Igreja, e as portas do Inferno não prevalecerão contra ela. Dar-te-ei as chaves do Reino do Céu; tudo o que ligares na terra ficará ligado nos Céus e tudo o que desligares na terra será desligado no Céu."
Mateus, 16, 18-19
Gostaria antes de mais nada de agradecer ao Manuel Rezende o convite que me fez para participar neste blog de intercâmbio de conhecimentos e de experiências em torno do Catolicismo e do conservadorismo. É com o maior gosto que aceito esta oportunidade e pretendo que as minhas intervenções possam ser frutíferas.
A imagem que apresento acima é conhecida universalmente. Mostra-nos a criação de Adão por Deus. É interessante ver como ambos se encontram separados, cada um na sua concha, remetendo-nos assim para dois lugares distintos: o lugar de Deus e o lugar do Homem. Isto não significa contudo, que Deus não tivesse a intenção de os unir. Se não fosse assim, por que estariam ambos de braços estendidos tentando-se alcançar mutuamente? Porque de facto queriam ficar unidos! Mas esta união não foi possível, porque o Homem não quis apenas estar unido a Deus, ele quis ser o próprio Deus. Foi com esse intuito que Eva pegou na maçã e a comeu, dando-a também ao seu marido, pois a serpente tinha-lhe dito: "Não, não morrereis (ao comer o fruto); porque Deus sabe que, no dia em que o comerdes, abrir-se-ão os vossos olhos e sereis como Deus...". Assim, se quebrou a unidade inicial e o que estava unido ficou separado, pois Adão e Eva cometeram a "ὕβρις"(hyubris), a arrogância contra Deus. Mas não para sempre. Deus quis unir-se com a Humanidade enviando um novo Adão (Cristo) e uma nova Eva (a Virgem Maria) refazendo a aliança que tinha sido quebrada. Deus funda a Igreja para nela se ligar com todo o género humano e o conduzir à salvação.
Pois bem, aqui estamos nós, membros desta mesma Igreja que durou até ao ano de 2012 e que, segundo a nossa Fé e Esperança, atingirá a eternidade, se se mantiver fundada na Caridade. Na imagem acima não vemos apenas uma desunião entre o Homem e Deus, como se passou com a história de Adão e Eva, mas vemos uma brecha que promete separar Deus e o Homem para sempre. É o nosso dever impedir que o Homem do Terceiro Milénio faça pior do que provar a maçã, quebrando a aliança que Deus fez com ele. É o nosso dever, como Igreja, Assembleia de Deus, continuar a fazer o esforço de esticar o braço de Adão para que ele agarre a mão de Deus firmemente. Todavia, bem sabemos que o Homem do século XXI não só já não agarra a mão de Deus, com cria perante Ele uma brecha bem profunda. Mas porque é que o Homem do séc. XXI, uma vez que não se quer unir a Deus, não deixa apenas de continuar a esticar o braço? Porquê uma brecha, uma divisão tão brusca? Porque para o Homem do século XXI, já não basta não se unir a Deus, tem de se afastar dele o mais que puder. Não se trata apenas de uma necessidade de desunião, mas de fuga, que leva alguns a convencerem-se que para além da brecha já não existe nada (estes, são sem dúvida, os ateístas). Adão e Eva ficaram desunidos de Deus, porque criam ser como Deus. Para os ateístas, Deus já não é uma meta alcançar, nem sequer um desejo admissível. Deus é para eles um vácuo, e, se existisse, seria a essência mais abominável do Universo. Como disse Christopher Hitchens um dos "quatro cavaleiros do neo-ateísmo" recém-falecido: "seria péssimo se [Deus] existisse".
Já vimos que o Homem do século XXI quer criar um fosso entre Deus e o Homem. E em relação à Igreja? Não querem tantos católicos hoje (a maioria sem se aperceber) criar esse mesmo fosso? Não querem muitos que a Igreja, Esposa de Cristo, dele se divorcie?
A citação de Mateus que coloquei debaixo da imagem, não foi de modo nenhum por mero acaso. Reparem que Jesus, quando se dirige a Pedro, diz que o que desligar na terra ficará desligado nos Céus, mas não diz para desligar o que une o Céu à Terra. Ou seja, a Igreja, pela autoridade que lhe foi conferida por Nosso Senhor Jesus Cristo, detêm as chaves, para fechar ou abrir aos membros da Humanidade "o acesso à comunhão com a comunidade cristã" (vide: comentário da Bíblia dos Capuchinhos). O Papa, a quem foi conferida esta autoridade, não pode usar as mesmas chaves, para trancar a Igreja do poder de Deus. Esse poder não lhe foi dado. Pode determinar quem pode entrar na Igreja para estar em comunhão com Deus, mas não pode acabar com essa comunhão. Ela durará até ao fim dos tempos. Temos pois, o dever de ajudar o Papa a manter as portas da Igreja abertas a Cristo e defender que as chaves se mantêm na sua posse e não na da multidão que tanto quer ver as portas fechadas.
Quantos não são hoje aqueles que desejam ter as chaves de São Pedro? Muitos já tentaram roubar as chaves, pensando que eram essas as verdadeiras. Não foi isso que fizeram os protestantes? Acharam que tinham as chaves e criaram uma nova igreja. Vê-se bem que as chaves verdadeiras continuam na Igreja Católica Apostólica Romana e não na deles. E porque todos esses protestantes quiseram aquilo a que não tinham direito, obviamente não tardaram em retirar as chaves àquele primeiro (Martinho Lutero) que as roubou. Hoje as chaves falsas já se multiplicaram tanto, que temos 30 000 igrejas protestantes no mundo, dizendo todas elas terem as verdadeiras chaves de Cristo, que nunca lhes foram entregues.
Hoje a Igreja encontra-se perante um grande dilema: manter as chaves na posse da cátedra de São Pedro ou dá-las à multidão, como tantos católicos progressistas hoje defendem. Esta segunda hipótese só tem para mim uma consequência: que as portas do Inferno prevalecerão certamente sobre a Igreja. Aceitar o casamento homossexual, aceitar o fim do celibato, aceitar a ordenação de casais de gays e de lésbicas, aceitar todos os métodos contracetivos artificiais, aceitar a não existência do pecado, aceitar a possibilidade do aborto, aceitar o fim da monarquia papal e a transferência da sua autoridade para os leigos que escolheriam através do voto os seus pastores, só pode constituir um fechar das portas à comunhão da Igreja com Deus, com as Sagradas Escrituras e com a Tradição Apostólica. São estes os três sustentáculos da Igreja. O seu cumprimento permitiu que a Igreja sobrevivesse heroicamente estes 2000 anos, passando pelo fim do Império Romano do Ocidente, pelo fim do Império Romano do Oriente, pelo Cisma Ortodoxo, pelo fim do teocentrismo medieval, pela Reforma, pela Revolução Francesa, pelo fim dos Estados Papais, pelo fascismo, pelo marxismo, pelo ateísmo, pelo neo-ateísmo, pelas ameaças do Islão e pelas heresias de novas igrejas cristãs, sã e salva. Transmitida por doze apóstolos, quase todos eles pescadores e ignorantes, a mensagem de Cristo foi acreditada por sábios e néscios, por santos e pecadores e chegou mesmo aos confins do mundo.
A Igreja atravessa atualmente, sem dúvida alguma, uma dura crise e perda de fiéis. Contudo, isso jamais pode levá-la a prostituir a Verdade para agradar aos homens, como tantas outras o fizeram. A Igreja não pode ignorar o seu esposo, Jesus Cristo, a Tradição Apostólica e as Sagradas Escrituras. As igrejas protestantes que cometeram este erro, têm as portas fechadas à Verdade de Deus e começam a ter as suas próprias portas fechadas, porque os fiéis sabem que a Verdade não é uma hoje e outra amanhã, mas que se mantém sempre igual, desde o alfa ao ómega dos tempos.
Vejamos o caso dos Episcopalianos. Todos os desejos dos progressistas se concretizaram nesta igreja. Baseando-me no site espanhol "Religión en Libertad" vou apresentar alguns dados interessantes. "No século XVI, o anglicanismo aceitou o clero casado. Em 1930 aceitaram (os Episcopalianos) a anticonceção. Em 1976 os Espicopalianos aprovaram o clero feminino. Em 1989 ordenou-se a primeira bispa espiscopal. Em 1994 proibiram-se todas as terapias para deixar a homossexualidade. Em 2000 aceitou-se o sexo fora do matrimónio. Em 2003 ordenaram bispo Gene Robinson, um senhor divorciado com dois filhos, que vivia maritalmente com outro homem. Em 2006 a igreja Episcopal admitia o casamento homossexual. A 1 de Janeiro de 2011 um bispo episcopal casava duas sacerdotisas lésbicas episcopais, sendo uma delas uma famosa militante pró-aborto." Resultado: não conseguiram atrair mais gente para a sua igreja. Bem pelo contrário. Tinham 3,4 milhões de fiéis em 2001 e 8 anos depois em 2009 tinham apenas 2 milhões. Isto representa uma queda de 41% num curtíssimo espaço de tempo!
Não podemos tirar outra conclusão a não ser esta: manter as portas abertas a Cristo e não desligar aquilo que Deus uniu, Cristo e a Sua Igreja numa só Carne para sempre!
15 de abril de 2011
Distributismo na Blogosfera
O gosto ou deleite é o sentimento que brota da alma, quando contemplamos o belo, o qual é objecto de estudo da estética.
Amor é o apetite que nasce dentro de nós, sempre que se vê o bem. Chama-se ética a ciência que analisa este atributo.
O êxtase é o arrebatamento que vivemos de cada vez que a nossa inteligência alcança a verdade. Cumpre à ontologia defini-la.
A verdade, a bondade e a beleza do Ser têm um carácter de universalidade e de necessidade absolutas e são, por isso, perfeitamente objectivas. Só se captam se virmos o Ser na sua unidade transcendente.
A unidade do Ser provoca no nosso espírito uma sensação de equilíbrio, dá-lhe a justa proporção das coisas. Quando esta harmonia se rompe e nos esquecemos que o Ser possui determinada multiplicidade (contra o que afirma o racionalismo), ao mesmo tempo que apresenta certa unidade (o que é negado pelo empirismo), torna-se inútil buscar o que ele tem de verdadeiro, de bom e de belo. Com efeito, quer o empirismo, quer o racionalismo são incapazes, isoladamente, de perscrutar, por forma satisfatória, os deslumbrantes horizontes da metafísica.
Os princípios de identidade, de causalidade e de finalidade, que reflectem os atributos transcendentais do Ser, estes primeiros princípios metafísicos encerram, como se verá melhor, a condenação dos sistemas económicos dos tempos modernos. Há quem prescreva, como remédio para este mal que se arrasta, parecendo que se eterniza, aquilo que designam por terceira via e que mais não é do que a confusão do sincretismo. Quanto a mim, só na tradição se acha resposta adequada a este candente problema. E não falo em tradição por nos devolver um modelo que precedeu socialismo e capitalismo: isso atirava-nos para os braços do conservadorismo, que nunca deixa de ser grosseiro uma vez que é relativo. Eu remeto para a tradição, porque ela transporta, in se, a carga preciosa dos valores ônticos que se impõem ao nosso entendimento e ao nosso querer.
É sobre esta base que importa reconstruir o edifício económico, tão danificado por sucessivos abalos. Essa tarefa repousa em pontos muito inequívocos.
Analisemos pois o fenómeno, segundo os ditames da Tradição:
Donde provém a riqueza? --- Dos bens existentes e do trabalho realizado pelo homem. Falhando um destes elementos, não há riqueza.
A natureza, tal como o homem a encontra e em cujo processo de transformação não interveio nem intervém, constitui a causa material extrínseca da riqueza; o trabalho é a sua causa formal; o produto deste trabalho utilizado para novas transformações dá-nos a sua causa instrumental eficiente; o sujeito, que trabalha, tem a nobilíssima dignidade que cabe a toda a causa eficiente principal; e o bem-estar material do homem, ordenado à sua perfeição espiritual, proporciona a causa final.
A causa material extrínseca e a causa instrumental eficiente preenchem o conceito vulgarmente designado por capital. Mas porque não se pode precindir de nenhuma das causas acima enunciadas sob pena de não termos riqueza --- a própria causa final tem de se fazer sentir, mesmo desvirtuada, visto que «omne agens agit propter finem» (1) ---, somos forçados a concluir que capital e trabalho são indispensáveis na produção de qualquer bem económico, sem nunca esquecer a altíssima condição de quem é seu agente: a pessoa humana, categoria máxima de toda a realidade que aqui tratamos.
Pondo de parte o homem e o trabalho por ele desenvolvido, assim como o aspecto teleológico da produção de bens económicos, os outros factores de riqueza --- e que, em si mesmos, já são riqueza --- constituem aquilo a que se chama património.
O património é a face estática da riqueza. Esta, no seu aspecto dinâmico, toma o nome de rendimento.
O rendimento assume quatro modalidades: salário, quando é a remuneração da actividade exercida pelo trabalhador; juro, se é contrapartida daquilo que o capitalista investe; renda, quando corresponde a valores económicos na raiz de cujo desenvolvimento se situa a propriedade sobre imóveis; lucro, se é a paga dos bens devidos ao empresário, no meio da incerteza que este suporta. Todos estes agentes --- trabalhador, capitalista, proprietário ou empresário --- todos eles (e convém não perder de conta que nada impede a reunião, na mesma pessoa, de mais de uma daquelas qualidades), todos, sem excepção, impulsionam as mudanças que se dão no circuito económico e, por esse facto, merecem ser compensados através de créditos.
Para um juízo ético sobre tais formas de enriquecimento, é indiferente a distinção. Não há necessariamente qualquer desordem nelas: todas são legítimas desde que se observe uma correcta proporção entre aquilo que se presta e o que se acumula; e qualquer delas é imoral, se esse equilíbrio se desfaz.
Exposto isto, detenhamo-nos um pouco mais sobre o laço que une capital e trabalho:
A sua união é tão estreita que não conseguem existir um sem o outro. O insuspeito Marx não duvidava reconhecer que «o trabalho não é a única fonte (...) da riqueza material» (2) e logo, invocando William Petty, acrescentava que «o homem é o pai dessa riqueza e a terra é a mãe» (3). Noutro lugar da mesma obra, afirma que é impossível «produzir botas sem cabedal» (4) e que «(...) hoje, como no primeiro dia da sua aparição na cena do mundo, o homem é obrigado a consumir antes de produzir e enquanto produzir.» (5)
O trabalho, isolado do capital, é como o escultor que nada cria, porque o separaram da pedra bruta, da qual devia sair, com vida, a estátua sonhada. Por outro lado, de que serviria o capital, se não desse frutos? E como daria frutos, sem uma aplicação? E para quê aplicá-lo, se não fosse trabalhado?
É pois o trabalho que dá forma ao capital, mas, sem este, o trabalho também não teria onde actuar. Cindir trabalho e capital é o pecado ontológico levado ao campo da economia. No domínio do pensamento, a ruptura da unidade do Ser provocou os erros do empirismo e do racionalismo, correntes que se perfilam numa relação de antagonismo, sem encontrar remédio por mais que o procurem, porque cada uma delas está amputada do que a outra tem.
Em economia, essa quebra de harmonia trouxe-nos as falácias do capitalismo, a que se opuseram as utopias socialistas.Nenhum destes modelos se pode oferecer como solução alternativa. As promessas de salvação, como as apregoam, são de realização impossível. Ambos se revelam incapazes de brindar os povos com a felicidade que anunciam. A estrutura de um e de outro padece de um gravíssimo vício de origem --- a já assinalada falta de unidade ontológica.
Este duelo há-de prosseguir enquanto os filósofos voltarem costas á lição perene da escolástica e os políticos ignorarem o exemplo das corporações medievais, experiência que mereceu os mais rasgados elogios a próceres do comunismo, que não ocultaram as excelências daquele sistema laboral (6). O confronto só acabará quando se operar a integração do elemento formal no elemento material da realidade económica.
Regressamos, assim, ao ponto de partida: a riqueza é o produto do capital informado pelo trabalho. A sua distribuição, portanto, tem de passar por estes dois factores e contemplar todos os agentes económicos envolvidos no ciclo da sua produção.
"As coisas são de quem nelas trabalha", tornou-se num estribilho que não é invulgar ouvir no grémio socialista. Esta ideia constitui mesmo um dos pilares da sua doutrina. É uma sentença que encerra alguma verdade. Porém, tal como está enunciada, deixa a impressão de que só quem trabalha é dono das coisas que trazem a marca do seu esforço activo.
De qualquer modo, a frase citada é frequentemente proferida. Bastante defeituosamente, mas é. Ao menos, seria razoável esperar uma atitude de coerência por parte dos seus autores. Mas nem isso acontece. Quando a gente conta que eles surjam a censurar as mais-valias, repudiem heranças, recusem doações, enfim, virem costas a todo o tipo de liberalidades, é vê-los cada vez mais sôfregos de bens que não derivam de trabalho por eles realizado. Agarram-se gulosamente à riqueza que vai ter com eles e para cuja produção não mexeram um dedo; e negam-se a repartir lucros por todos quantos interferem na génese dos proventos que lhes tocam. Impávidos na teoria económica que soltam das suas bocas enganosas, não vêem consequências de maior por afirmar que as coisas são de quem nelas trabalha, pois, nisto de dividir, o quociente nem sempre é o mesmo --- quando chega a altura só os privilegiados aparecem no divisor.
Não lhes chamemos poços de ganância. É uma injustiça! Eles são os novos franciscanos. Não estão famintos de dinheiro: o que têm é que os seus hábitos de vida traduzem um estilo novo de entender a grandiosa ascese escondida na regra humilde do poverello de Assis.
Por banda do capitalismo, assiste-se ao culto da liberdade de mercado. Mas a liberdade, de que falam, é a que permite o triunfo saído de um jogo de forças, que se chocam dentro do maior relativismo de valores e em condições muito próximas, pela sua correspondência e pelo que têm de equivalente, às vividas na lei da selva.
Os descamisados, que o liberalismo económico gera, vão engrossando as fileiras do exército de reserva industrial, um dos pontos de apoio da estratégia marxista que, naqueles deserdados da fortuna, cheios de revolta tantas vezes justa, descobriu uma força difícil de parar, da qual se serviu para a concretização dos seus propósitos.
Uns e outros --- socialistas e capitalistas --- idolatram, com o mesmo fervor, o metal luzente. No socialismo, temos um regime penitenciário, onde, debaixo da ameaça do chicote, se anda por caminhos previamente definidos e só por aí. O capitalismo, aparentemente, dá outra soltura até que o assalariado percebe que tem de aceitar as condições de trabalho oferecidas, sob pena de nem isso conseguir e morrer à míngua de sustento. A sujeição é de diferente espécie, mas é do mesmo grau --- viola brutalmente os direitos da pessoa humana.
Desenganemo-nos: só se avançará na justiça social com o regresso à ordem tradicional, porque é a única que está de acordo com a natureza das coisas!
Joaquim Maria Cymbron
________________________________
S.Tomás de Aquino --- Summa Theologica I, q. 44, a. 4.
Karl Marx --- O Capital, I, Delfos, 7.ª ed., p. 21.
Ib.
Op.cit., p. 103.
Ib.
Karl Marx: «As leis das corporações da Idade Média impediam metodicamente a transformação do mestre em capitalista, limitando por éditos rigorosos o emprego de artífices que não pertencessem ao seu ofício. A corporação guardava-se igualmente com um zelo ciumento de toda a incursão do capital comercial (...). O comerciante só era suportado a título de retalhista, podia comprar todo o tipo de mercadoria, exceptuando o trabalho. Quando circunstâncias exteriores necessitavam de uma progressiva divisão do trabalho, as corporações existentes subdividiam-se (...) ou então formavam-se novas corporações ao lado das antigas, sem que ofícios diferentes fossem reunidos na mesma oficina. A organização corporativa excluía portanto a divisão manufactureira do trabalho, embora desenvolvesse as suas condições de existência, isolando e aperfeiçoando os ofícios. Em geral, o operário e os seus meios de produção ficavam soldados um ao outro como o caracol à sua casca.» (Op.cit., p.225). Mais adiante, lê-se: «(...) o aparecimento do capitalista apresenta-se como resultado de uma luta vitoriosa contra o poder senhorial com as suas prerrogativas revoltantes, e contra o regime corporativo com os entraves que punha ao livre desenvolvimento da produção e à livre exploração do homem pelo homem.» (Ib., p.443). Continuando, diz aquele autor: «A classe assalariada, que surgiu na última metade do século XIV não formava então, como no século seguinte, mais do que uma pequena parte da população. A sua posição estava fortemente protegida, nos campos, pelos camponeses independentes, na cidade pelo regime corporativo dos ofícios. (...). Uma grande parte do produto nacional, transformada mais tarde em fundo de acumulação capitalista, entrava ainda então no fundo de consumo do trabalhador.» (Ib., p.459). Já no ano de 1848, Marx anunciara que os proletários «tentam recuperar pela força a posição perdida do artesão da Idade Média.» (MANIFESTO DO PARTIDO COMUNISTA, Publicações Nova Aurora, Lisboa, 1976, p.53). Posteriormente, o seu indefectível amigo e companheiro na fundação do socialismo científico, vem depor como segue: «A indústria do artesanato medieval, local e corporativo, impossibilitava a existência de grandes capitalistas e de operários assalariados por toda a vida, tal como os cria, necessariamente, a grande indústria moderna, o actual desenvolvimento do crédito e a evolução correspondente das formas de troca, a saber: a livre concorrência.» (ANTI-DÜHRING, Edições Afrodite, 2.ª ed., p.185).
JMC
PUBLICADA POR JOAQUIM M.ª CYMBRON
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