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14 de maio de 2011

Gnostic Economics: compreender o Liberalismo

Crunchy Pope, Part Two: Against Gnostic Economics

In a sense, Locke treats the parent-child relationship as something accidental, a relationship of convenience between beings capable of free exercise of will. The child needs the parents because he is not yet capable of “the Freedom … of acting according to his own Will.” The parents provide nutrition and education during the period of preparation for independence, and the child’s duty to honor his parents is in exact proportion to the care taken for his education. The “bare act of begetting” carries with it no claim to gratitude.

The human body, like the rest of nature, begins as worthless material until it is labored upon by the will of the person whose body it becomes. It is by the action of our will that we develop all of our capacities beyond the merely nutritive. Education is the great labor by which the human species makes of itself something worthwhile, and whatever role the parents play in that education, it can accomplish nothing without the exercise of the child’s will. Hence my mind too attains its worth from the labor that I will to invest in it.

This is the sense in which Locke understands human beings as being their own individual property. All that they are that is of any value results from the labor they exercise upon themselves. Parents are, at best, the enablers of our self-creation, providing us with the material that is nearly worthless until improved by our own efforts.

In short, just as nature and the earth constitute the worthless world whose value lies in what humans can make of it, so too my body and mind are initially parts of that worthless world. It is when my will reshapes all this and turns it into some embodiment of itself that I lay claim to it. The world as given is essentially worthless, and the value things have results from our laboring to make the worthless material suitable to our wishes. It is the will that imparts value both by determining what will make something valuable and by causing that valuable something to be built up in it.

The older Gnostics turned away from the created world in revulsion; the newer Gnosticism turns against it in active opposition. By reducing the terms to world and will, modern Gnosticism more forthrightly declares that the world can only be good if our will declares it such.

On this view it is reasonable to understand our bodies as our own property. It is reasonable to understand the gestating child as the property of the mother as long as it remains part of her body and is far more the product of her labor than of its own. If we view human beings as abstract choosers, wholly equal as such, it is reasonable to view them as only accidentally related to other abstract choosers, such as parents, who are moved by whatever incentives nature has planted in them to help along our project of attaining independence. It is reasonable to understand life and the given world as in themselves negligible, as little to merit gratitude.

All this accords with Benedict’s description Gnosticism:

Human beings want to understand the discovered world only as material for their own creativity…. Gnosticism will not entrust itself to a world already created, but only to a world still to be created.

This means that Gnosticism will always be prepared to sacrifice what is, or “life as we encounter it,” to its vision of the unfettered life of the will, and to deny the reality of whatever places limits on our choices, such as the normative principles built into intergenerational relationships or into long-term sustenance of productive soil. Modern Gnosticism, under the guise of worldliness, is more thoroughly and intransigently world-negating than its ancestor.

As Benedict observes, this vision of the person confronting the world sets us in a new total antagonism to the created order:

Previously human beings could only transform particular things in nature; nature as such was not the object but rather the presupposition of their activity. Now, however, it itself has been delivered over to them in toto. Yet as a result they suddenly see themselves imperiled as never before.

Christianity, by contrast, recognizes the created order as a gift:

The fundamental Christian attitude is one of humility, a humility of being, not a merely moralistic one: being as receiving, accepting oneself as created and dependent on “love.” … The doctrine of redemption is based on the doctrine of creation, of an irrevocable Yes to creation…. Only if the being of creation is good, only if trust in being is fundamentally justified, are humans at all redeemable.

If we do not recognize the created order as harboring a goodness that comes to us from outside and makes claims upon us, we can recognize nothing as good except what is said to be so by our own act of valuing. Only if we are not the source of all value can we embrace the possibility of redemption.

Thus faith in creation is not (as modern theology too often treats it) “devoid of anthropological importance.” The question of creation, and of whether the creation and the Creator deserve our love and gratitude, goes to the very heart of what it means to be human, of what it means to be a laboring being, of what constitutes wealth and prosperity and an economy consonant with human aspirations and the human good.

15 de abril de 2011

Distributismo na Blogosfera


O gosto ou deleite é o sentimento que brota da alma, quando contemplamos o belo, o qual é objecto de estudo da estética.
Amor é o apetite que nasce dentro de nós, sempre que se vê o bem. Chama-se ética a ciência que analisa este atributo.
O êxtase é o arrebatamento que vivemos de cada vez que a nossa inteligência alcança a verdade. Cumpre à ontologia defini-la.
A verdade, a bondade e a beleza do Ser têm um carácter de universalidade e de necessidade absolutas e são, por isso, perfeitamente objectivas. Só se captam se virmos o Ser na sua unidade transcendente.
A unidade do Ser provoca no nosso espírito uma sensação de equilíbrio, dá-lhe a justa proporção das coisas. Quando esta harmonia se rompe e nos esquecemos que o Ser possui determinada multiplicidade (contra o que afirma o racionalismo), ao mesmo tempo que apresenta certa unidade (o que é negado pelo empirismo), torna-se inútil buscar o que ele tem de verdadeiro, de bom e de belo. Com efeito, quer o empirismo, quer o racionalismo são incapazes, isoladamente, de perscrutar, por forma satisfatória, os deslumbrantes horizontes da metafísica.
Os princípios de identidade, de causalidade e de finalidade, que reflectem os atributos transcendentais do Ser, estes primeiros princípios metafísicos encerram, como se verá melhor, a condenação dos sistemas económicos dos tempos modernos. Há quem prescreva, como remédio para este mal que se arrasta, parecendo que se eterniza, aquilo que designam por terceira via e que mais não é do que a confusão do sincretismo. Quanto a mim, só na tradição se acha resposta adequada a este candente problema. E não falo em tradição por nos devolver um modelo que precedeu socialismo e capitalismo: isso atirava-nos para os braços do conservadorismo, que nunca deixa de ser grosseiro uma vez que é relativo. Eu remeto para a tradição, porque ela transporta, in se, a carga preciosa dos valores ônticos que se impõem ao nosso entendimento e ao nosso querer.
É sobre esta base que importa reconstruir o edifício económico, tão danificado por sucessivos abalos. Essa tarefa repousa em pontos muito inequívocos.
Analisemos pois o fenómeno, segundo os ditames da Tradição:

Donde provém a riqueza? --- Dos bens existentes e do trabalho realizado pelo homem. Falhando um destes elementos, não há riqueza.
A natureza, tal como o homem a encontra e em cujo processo de transformação não interveio nem intervém, constitui a causa material extrínseca da riqueza; o trabalho é a sua causa formal; o produto deste trabalho utilizado para novas transformações dá-nos a sua causa instrumental eficiente; o sujeito, que trabalha, tem a nobilíssima dignidade que cabe a toda a causa eficiente principal; e o bem-estar material do homem, ordenado à sua perfeição espiritual, proporciona a causa final.
A causa material extrínseca e a causa instrumental eficiente preenchem o conceito vulgarmente designado por capital. Mas porque não se pode precindir de nenhuma das causas acima enunciadas sob pena de não termos riqueza --- a própria causa final tem de se fazer sentir, mesmo desvirtuada, visto que «omne agens agit propter finem» (1) ---, somos forçados a concluir que capital e trabalho são indispensáveis na produção de qualquer bem económico, sem nunca esquecer a altíssima condição de quem é seu agente: a pessoa humana, categoria máxima de toda a realidade que aqui tratamos.
Pondo de parte o homem e o trabalho por ele desenvolvido, assim como o aspecto teleológico da produção de bens económicos, os outros factores de riqueza --- e que, em si mesmos, já são riqueza --- constituem aquilo a que se chama património.

O património é a face estática da riqueza. Esta, no seu aspecto dinâmico, toma o nome de rendimento.

O rendimento assume quatro modalidades: salário, quando é a remuneração da actividade exercida pelo trabalhador; juro, se é contrapartida daquilo que o capitalista investe; renda, quando corresponde a valores económicos na raiz de cujo desenvolvimento se situa a propriedade sobre imóveis; lucro, se é a paga dos bens devidos ao empresário, no meio da incerteza que este suporta. Todos estes agentes --- trabalhador, capitalista, proprietário ou empresário --- todos eles (e convém não perder de conta que nada impede a reunião, na mesma pessoa, de mais de uma daquelas qualidades), todos, sem excepção, impulsionam as mudanças que se dão no circuito económico e, por esse facto, merecem ser compensados através de créditos.
Para um juízo ético sobre tais formas de enriquecimento, é indiferente a distinção. Não há necessariamente qualquer desordem nelas: todas são legítimas desde que se observe uma correcta proporção entre aquilo que se presta e o que se acumula; e qualquer delas é imoral, se esse equilíbrio se desfaz.
Exposto isto, detenhamo-nos um pouco mais sobre o laço que une capital e trabalho:

A sua união é tão estreita que não conseguem existir um sem o outro. O insuspeito Marx não duvidava reconhecer que «o trabalho não é a única fonte (...) da riqueza material» (2) e logo, invocando William Petty, acrescentava que «o homem é o pai dessa riqueza e a terra é a mãe» (3). Noutro lugar da mesma obra, afirma que é impossível «produzir botas sem cabedal» (4) e que «(...) hoje, como no primeiro dia da sua aparição na cena do mundo, o homem é obrigado a consumir antes de produzir e enquanto produzir.» (5)

O trabalho, isolado do capital, é como o escultor que nada cria, porque o separaram da pedra bruta, da qual devia sair, com vida, a estátua sonhada. Por outro lado, de que serviria o capital, se não desse frutos? E como daria frutos, sem uma aplicação? E para quê aplicá-lo, se não fosse trabalhado?

É pois o trabalho que dá forma ao capital, mas, sem este, o trabalho também não teria onde actuar. Cindir trabalho e capital é o pecado ontológico levado ao campo da economia. No domínio do pensamento, a ruptura da unidade do Ser provocou os erros do empirismo e do racionalismo, correntes que se perfilam numa relação de antagonismo, sem encontrar remédio por mais que o procurem, porque cada uma delas está amputada do que a outra tem.

Em economia, essa quebra de harmonia trouxe-nos as falácias do capitalismo, a que se opuseram as utopias socialistas.Nenhum destes modelos se pode oferecer como solução alternativa. As promessas de salvação, como as apregoam, são de realização impossível. Ambos se revelam incapazes de brindar os povos com a felicidade que anunciam. A estrutura de um e de outro padece de um gravíssimo vício de origem --- a já assinalada falta de unidade ontológica.
Este duelo há-de prosseguir enquanto os filósofos voltarem costas á lição perene da escolástica e os políticos ignorarem o exemplo das corporações medievais, experiência que mereceu os mais rasgados elogios a próceres do comunismo, que não ocultaram as excelências daquele sistema laboral (6). O confronto só acabará quando se operar a integração do elemento formal no elemento material da realidade económica.

Regressamos, assim, ao ponto de partida: a riqueza é o produto do capital informado pelo trabalho. A sua distribuição, portanto, tem de passar por estes dois factores e contemplar todos os agentes económicos envolvidos no ciclo da sua produção.
"As coisas são de quem nelas trabalha", tornou-se num estribilho que não é invulgar ouvir no grémio socialista. Esta ideia constitui mesmo um dos pilares da sua doutrina. É uma sentença que encerra alguma verdade. Porém, tal como está enunciada, deixa a impressão de que só quem trabalha é dono das coisas que trazem a marca do seu esforço activo.

De qualquer modo, a frase citada é frequentemente proferida. Bastante defeituosamente, mas é. Ao menos, seria razoável esperar uma atitude de coerência por parte dos seus autores. Mas nem isso acontece. Quando a gente conta que eles surjam a censurar as mais-valias, repudiem heranças, recusem doações, enfim, virem costas a todo o tipo de liberalidades, é vê-los cada vez mais sôfregos de bens que não derivam de trabalho por eles realizado. Agarram-se gulosamente à riqueza que vai ter com eles e para cuja produção não mexeram um dedo; e negam-se a repartir lucros por todos quantos interferem na génese dos proventos que lhes tocam. Impávidos na teoria económica que soltam das suas bocas enganosas, não vêem consequências de maior por afirmar que as coisas são de quem nelas trabalha, pois, nisto de dividir, o quociente nem sempre é o mesmo --- quando chega a altura só os privilegiados aparecem no divisor.
Não lhes chamemos poços de ganância. É uma injustiça! Eles são os novos franciscanos. Não estão famintos de dinheiro: o que têm é que os seus hábitos de vida traduzem um estilo novo de entender a grandiosa ascese escondida na regra humilde do poverello de Assis.
Por banda do capitalismo, assiste-se ao culto da liberdade de mercado. Mas a liberdade, de que falam, é a que permite o triunfo saído de um jogo de forças, que se chocam dentro do maior relativismo de valores e em condições muito próximas, pela sua correspondência e pelo que têm de equivalente, às vividas na lei da selva.

Os descamisados, que o liberalismo económico gera, vão engrossando as fileiras do exército de reserva industrial, um dos pontos de apoio da estratégia marxista que, naqueles deserdados da fortuna, cheios de revolta tantas vezes justa, descobriu uma força difícil de parar, da qual se serviu para a concretização dos seus propósitos.
Uns e outros --- socialistas e capitalistas --- idolatram, com o mesmo fervor, o metal luzente. No socialismo, temos um regime penitenciário, onde, debaixo da ameaça do chicote, se anda por caminhos previamente definidos e só por aí. O capitalismo, aparentemente, dá outra soltura até que o assalariado percebe que tem de aceitar as condições de trabalho oferecidas, sob pena de nem isso conseguir e morrer à míngua de sustento. A sujeição é de diferente espécie, mas é do mesmo grau --- viola brutalmente os direitos da pessoa humana.

Desenganemo-nos: só se avançará na justiça social com o regresso à ordem tradicional, porque é a única que está de acordo com a natureza das coisas!


Joaquim Maria Cymbron
________________________________
S.Tomás de Aquino --- Summa Theologica I, q. 44, a. 4.
Karl Marx --- O Capital, I, Delfos, 7.ª ed., p. 21.
Ib.
Op.cit., p. 103.
Ib.
Karl Marx: «As leis das corporações da Idade Média impediam metodicamente a transformação do mestre em capitalista, limitando por éditos rigorosos o emprego de artífices que não pertencessem ao seu ofício. A corporação guardava-se igualmente com um zelo ciumento de toda a incursão do capital comercial (...). O comerciante só era suportado a título de retalhista, podia comprar todo o tipo de mercadoria, exceptuando o trabalho. Quando circunstâncias exteriores necessitavam de uma progressiva divisão do trabalho, as corporações existentes subdividiam-se (...) ou então formavam-se novas corporações ao lado das antigas, sem que ofícios diferentes fossem reunidos na mesma oficina. A organização corporativa excluía portanto a divisão manufactureira do trabalho, embora desenvolvesse as suas condições de existência, isolando e aperfeiçoando os ofícios. Em geral, o operário e os seus meios de produção ficavam soldados um ao outro como o caracol à sua casca.» (Op.cit., p.225). Mais adiante, lê-se: «(...) o aparecimento do capitalista apresenta-se como resultado de uma luta vitoriosa contra o poder senhorial com as suas prerrogativas revoltantes, e contra o regime corporativo com os entraves que punha ao livre desenvolvimento da produção e à livre exploração do homem pelo homem.» (Ib., p.443). Continuando, diz aquele autor: «A classe assalariada, que surgiu na última metade do século XIV não formava então, como no século seguinte, mais do que uma pequena parte da população. A sua posição estava fortemente protegida, nos campos, pelos camponeses independentes, na cidade pelo regime corporativo dos ofícios. (...). Uma grande parte do produto nacional, transformada mais tarde em fundo de acumulação capitalista, entrava ainda então no fundo de consumo do trabalhador.» (Ib., p.459). Já no ano de 1848, Marx anunciara que os proletários «tentam recuperar pela força a posição perdida do artesão da Idade Média.» (MANIFESTO DO PARTIDO COMUNISTA, Publicações Nova Aurora, Lisboa, 1976, p.53). Posteriormente, o seu indefectível amigo e companheiro na fundação do socialismo científico, vem depor como segue: «A indústria do artesanato medieval, local e corporativo, impossibilitava a existência de grandes capitalistas e de operários assalariados por toda a vida, tal como os cria, necessariamente, a grande indústria moderna, o actual desenvolvimento do crédito e a evolução correspondente das formas de troca, a saber: a livre concorrência.» (ANTI-DÜHRING, Edições Afrodite, 2.ª ed., p.185).

JMC

PUBLICADA POR JOAQUIM M.ª CYMBRON

13 de abril de 2011

Sexo, Propriedade, Marxismo, Capitalismo. -- por GK Chesterton

Na linguagem torpe, insonsa, desarticulada e desconcertada a que muita da discussão moderna se acha reduzida, é imperativo afirmar que vemos em voga aquela mesma falácia que é aplicada aos tópicos do sexo e da propriedade. Naquela linguagem mais arcaica e desinibida na qual os homens podiam falar e cantar, parece mais cândido se afirmar que o mesmo espírito ruim se precipita contra as duas grandes bênçãos que nos presenteiam com a poesia da vida: o amor pela mulher e o amor pela terra. É importante observar, de início, que ambas estas coisas estavam intimamente associadas desde que a humanidade é humana - e até quando era pagã. Deveras, estavam estreitamente associadas, mesmo quando se tratava da mais decadente macumbaria. Porém, nem tanto a pestilência dum paganismo decadente fôra tão má como o odor de um cristianismo decadente. Assim é a decadência do que há de mais puro!

Havia, por exemplo, durante toda a Antiguidade, nos seus momentos primeiros e últimos, formas de idolatria e iconolatria das quais os homens cristãos dificilmente eram capazes de relatar: "Que não sejam [esses pagãos] sequer contados entre vós!". Os homens se perdiam na simples sexualidade duma mitologia do sexo; organizavam a prostituição como um sacerdócio, para o serviço dos seus templos; fizeram da pornografia a sua única lírica; parodiaram emblemas que quase tornavam a sua arquitectura numa espécie de frio e colossal exibicionismo. Muitos livros eruditos foram redigidos em todas estas seitas fálicas; e bem podeis prescrutar os seus detalhes, que pouco me importa. Mas o que me interessa é isto: que de certa fora, todo este pecado antigo era infinda e imesuravelmente mais nobre que o pecado moderno. Todos seus estudiosos concordam pelo menos num ponto: de que era o culto da fertilidade. Era, infelizmente, comummente aglotinada com o culto da fertilidade da terra. Porém, estava, pelo menos, do lado da natureza. Estava - concedamos - do lado da vida. Fôra deixado para os derradeiros cristãos, ou melhor, para os primeiros cristãos inteiramente comprometidos a blasfemar e a renegar o cristianismo, a invenção uma nova forma de veneração do sexo, que nem chega a ser uma veneração da vida. Foi incumbido aos derradeiríssimos modernistas proclamar uma religião erótica que, duma vez só, exalta a luxúria, mas proíbe a fertilidade. O novo paganismo merece literalmente a desfeita de Swinburne, no seu luto pelo velho paganismo, pois "não eleva o dote requintado e não estende já o banquete paternal". Os novos sacerdotes abolem a paternidade e guardam o banquete para si mesmos. São piores que os pagãos de Swinburne. Os sacerdotes de Príapo e Cotito mais facilmente alcançam o Reino dos Céus que aqueles.

É natural que esta separação desnaturada entre o sexo e a fertilidade que até mesmo os pagãos teriam por perversão se tenha feito acompanhar com uma separação e uma perversão semelhantes da natureza do amor à terra. Em ambos os contextos a falácia é a mesma; de que é muito verosímil a sua defesa. A razão por que os nossos compatriotas contemporâneos não compreendem quando lhes dizemos que o que entendemos por 'propriedade' é a de que eles apenas a têm por dinheiro; no sentido de 'salário'; no sentido de algo que é imediatamente consumido, gozado e gasto; algo que lhes confere prazer momentâneo e desaparece. Não compreendem o que entendemos por 'propriedade' algo que inclui esse prazer, por incidência; mas que começa e finda com algo mais exímio e digno e criativo. O homem que planta um pomar onde havia outrora um mato e decide quem o há-de herdar, também aprecia o sabor de maçãs; e, esperemos nós, também o sabor da cidra. Porém, ele faz algo de muito mais gratificante que tão-somente comer uma maçã. Ele impõe a sua vontade no mundo segundo o regulamento que foi dado pela vontade de Deus; ele afirma que a sua alma a si lhe pertence e não ao Departamento de Inspecção da Pomicultura, ou o Monopólio do Comércio da Maçã. Mas ele também faz algo que estava implícito em todas as religiões antigas da terra; naqueles grandes panoramas rurais e rituais que seguiam a sucessão sazonal na China e na Babilónia; ele venera a fertilidade do mundo. Agora a noção de reduzir a propriedade ao mero fruir do dinheiro é idêntica à noção de reduzir o amor ao simples gozo do sexo. Em ambos os casos, um prazer acidental, isolado, servil e até secreto é preterido a uma participação no grande processo criativo; até mesmo na grande criação do mundo.

E diga-se que duas coisas podem ser observadas lado a lado no sistema da Rússia bolchevique, porque o comunismo é o único modelo cabal e lógico do capitalismo. A primeira, já se admitiu, é a de todo o sistema se direccionava para o encorajamento ou coação do trabalhador para o gastar do seu salário; para que nada houvesse a pagar no seguinte fim de mês; para que de tudo gozasse e tudo consumisse e nada desperdiçasse; em suma, para que se aterrorizasse com a ideia de cometer um só crime em particular: o crime de economizar. Fôra uma extravagância domesticável; uma negligência disciplinada; uma prodigalidade humilde e submissa. No tempo em que o escravo cessava de esbanjar todo o seu ganho, em que começou a esconder e armazenar alguma propriedade, ele começava a economizar algo que, em última instância, compraria a sua liberdade. Poderia começar a contar como alguém perante o Estado; isto é, ele poderia tornar-se menos escravo e em algo mais parecido com um cidadão. Moralmente considerado, nada houve de mais daninho que esta generosidade bolchevique.

Mas que fique entendido que é o mesmo espírito e tom que grassa na forma com que se vem a lidar com a outra questão. O sexo é para ser apreendido pelo escravo apenas como gozo, para que nunca lhe confira poder. É imperativo que ele saiba o menos possível, ou que pelo menos pense o mínimo que seja capaz sobre o prazer, senão outra coisa que não o ser um gozo; de pensar ou saber de nada sobre donde vem ou para onde vai, desde o momento em que a ferramenta de lavoura lhe passa pelas próprias mãos. Ele não deve incomodar ninguém ao questionar sobre a sua origem dentro do propósito de Deus ou das suas sequelas na posteridade do homem. Em todo e qualquer contexto, ele não se deve afirmar um proprietário, mas apenas um consumidor; ainda que seja um consumidor dos elementos mais primários, como a vida e fogo, no quanto estes são consumíveis, pois ele não deve ter uma qualquer noção da Sarça Ardente, essa que arde e não é consumida. Pois tal sarça só cresce do solo, na terra real que os seres humanos podem apropriar; e o lugar onde eles se encontram de pé é terra santa.

E assim, há uma paralelo exacto entre as duas ideias modernas - sejam morais ou imorais - do que entende por reforma social. O mundo esqueceu-se simultaneamente que a criação de uma quinta é algo de muito maior que a criação de lucro, ou até de um produto, no sentido da apreciação do açúcar de plantio; e que a fundação duma família é algo muito maior que o sexo, como se vê limitado na acepção que vemos na literatura contemporânea; que foi reatada numa só pincelada através de um só verso de George Meredith: "E comamos o nosso pote de mel no sepulcro".

(Trad. do bloguer)