13 de abril de 2011

Sexo, Propriedade, Marxismo, Capitalismo. -- por GK Chesterton

Na linguagem torpe, insonsa, desarticulada e desconcertada a que muita da discussão moderna se acha reduzida, é imperativo afirmar que vemos em voga aquela mesma falácia que é aplicada aos tópicos do sexo e da propriedade. Naquela linguagem mais arcaica e desinibida na qual os homens podiam falar e cantar, parece mais cândido se afirmar que o mesmo espírito ruim se precipita contra as duas grandes bênçãos que nos presenteiam com a poesia da vida: o amor pela mulher e o amor pela terra. É importante observar, de início, que ambas estas coisas estavam intimamente associadas desde que a humanidade é humana - e até quando era pagã. Deveras, estavam estreitamente associadas, mesmo quando se tratava da mais decadente macumbaria. Porém, nem tanto a pestilência dum paganismo decadente fôra tão má como o odor de um cristianismo decadente. Assim é a decadência do que há de mais puro!

Havia, por exemplo, durante toda a Antiguidade, nos seus momentos primeiros e últimos, formas de idolatria e iconolatria das quais os homens cristãos dificilmente eram capazes de relatar: "Que não sejam [esses pagãos] sequer contados entre vós!". Os homens se perdiam na simples sexualidade duma mitologia do sexo; organizavam a prostituição como um sacerdócio, para o serviço dos seus templos; fizeram da pornografia a sua única lírica; parodiaram emblemas que quase tornavam a sua arquitectura numa espécie de frio e colossal exibicionismo. Muitos livros eruditos foram redigidos em todas estas seitas fálicas; e bem podeis prescrutar os seus detalhes, que pouco me importa. Mas o que me interessa é isto: que de certa fora, todo este pecado antigo era infinda e imesuravelmente mais nobre que o pecado moderno. Todos seus estudiosos concordam pelo menos num ponto: de que era o culto da fertilidade. Era, infelizmente, comummente aglotinada com o culto da fertilidade da terra. Porém, estava, pelo menos, do lado da natureza. Estava - concedamos - do lado da vida. Fôra deixado para os derradeiros cristãos, ou melhor, para os primeiros cristãos inteiramente comprometidos a blasfemar e a renegar o cristianismo, a invenção uma nova forma de veneração do sexo, que nem chega a ser uma veneração da vida. Foi incumbido aos derradeiríssimos modernistas proclamar uma religião erótica que, duma vez só, exalta a luxúria, mas proíbe a fertilidade. O novo paganismo merece literalmente a desfeita de Swinburne, no seu luto pelo velho paganismo, pois "não eleva o dote requintado e não estende já o banquete paternal". Os novos sacerdotes abolem a paternidade e guardam o banquete para si mesmos. São piores que os pagãos de Swinburne. Os sacerdotes de Príapo e Cotito mais facilmente alcançam o Reino dos Céus que aqueles.

É natural que esta separação desnaturada entre o sexo e a fertilidade que até mesmo os pagãos teriam por perversão se tenha feito acompanhar com uma separação e uma perversão semelhantes da natureza do amor à terra. Em ambos os contextos a falácia é a mesma; de que é muito verosímil a sua defesa. A razão por que os nossos compatriotas contemporâneos não compreendem quando lhes dizemos que o que entendemos por 'propriedade' é a de que eles apenas a têm por dinheiro; no sentido de 'salário'; no sentido de algo que é imediatamente consumido, gozado e gasto; algo que lhes confere prazer momentâneo e desaparece. Não compreendem o que entendemos por 'propriedade' algo que inclui esse prazer, por incidência; mas que começa e finda com algo mais exímio e digno e criativo. O homem que planta um pomar onde havia outrora um mato e decide quem o há-de herdar, também aprecia o sabor de maçãs; e, esperemos nós, também o sabor da cidra. Porém, ele faz algo de muito mais gratificante que tão-somente comer uma maçã. Ele impõe a sua vontade no mundo segundo o regulamento que foi dado pela vontade de Deus; ele afirma que a sua alma a si lhe pertence e não ao Departamento de Inspecção da Pomicultura, ou o Monopólio do Comércio da Maçã. Mas ele também faz algo que estava implícito em todas as religiões antigas da terra; naqueles grandes panoramas rurais e rituais que seguiam a sucessão sazonal na China e na Babilónia; ele venera a fertilidade do mundo. Agora a noção de reduzir a propriedade ao mero fruir do dinheiro é idêntica à noção de reduzir o amor ao simples gozo do sexo. Em ambos os casos, um prazer acidental, isolado, servil e até secreto é preterido a uma participação no grande processo criativo; até mesmo na grande criação do mundo.

E diga-se que duas coisas podem ser observadas lado a lado no sistema da Rússia bolchevique, porque o comunismo é o único modelo cabal e lógico do capitalismo. A primeira, já se admitiu, é a de todo o sistema se direccionava para o encorajamento ou coação do trabalhador para o gastar do seu salário; para que nada houvesse a pagar no seguinte fim de mês; para que de tudo gozasse e tudo consumisse e nada desperdiçasse; em suma, para que se aterrorizasse com a ideia de cometer um só crime em particular: o crime de economizar. Fôra uma extravagância domesticável; uma negligência disciplinada; uma prodigalidade humilde e submissa. No tempo em que o escravo cessava de esbanjar todo o seu ganho, em que começou a esconder e armazenar alguma propriedade, ele começava a economizar algo que, em última instância, compraria a sua liberdade. Poderia começar a contar como alguém perante o Estado; isto é, ele poderia tornar-se menos escravo e em algo mais parecido com um cidadão. Moralmente considerado, nada houve de mais daninho que esta generosidade bolchevique.

Mas que fique entendido que é o mesmo espírito e tom que grassa na forma com que se vem a lidar com a outra questão. O sexo é para ser apreendido pelo escravo apenas como gozo, para que nunca lhe confira poder. É imperativo que ele saiba o menos possível, ou que pelo menos pense o mínimo que seja capaz sobre o prazer, senão outra coisa que não o ser um gozo; de pensar ou saber de nada sobre donde vem ou para onde vai, desde o momento em que a ferramenta de lavoura lhe passa pelas próprias mãos. Ele não deve incomodar ninguém ao questionar sobre a sua origem dentro do propósito de Deus ou das suas sequelas na posteridade do homem. Em todo e qualquer contexto, ele não se deve afirmar um proprietário, mas apenas um consumidor; ainda que seja um consumidor dos elementos mais primários, como a vida e fogo, no quanto estes são consumíveis, pois ele não deve ter uma qualquer noção da Sarça Ardente, essa que arde e não é consumida. Pois tal sarça só cresce do solo, na terra real que os seres humanos podem apropriar; e o lugar onde eles se encontram de pé é terra santa.

E assim, há uma paralelo exacto entre as duas ideias modernas - sejam morais ou imorais - do que entende por reforma social. O mundo esqueceu-se simultaneamente que a criação de uma quinta é algo de muito maior que a criação de lucro, ou até de um produto, no sentido da apreciação do açúcar de plantio; e que a fundação duma família é algo muito maior que o sexo, como se vê limitado na acepção que vemos na literatura contemporânea; que foi reatada numa só pincelada através de um só verso de George Meredith: "E comamos o nosso pote de mel no sepulcro".

(Trad. do bloguer)

3 comentários:

  1. "Naquela linguagem mais arcaica e desinibida na qual os homens podiam falar e cantar, parece mais cândido se afirmar que o mesmo espírito ruim se precipita contra as duas grandes bênçãos que nos presenteiam com a poesia da vida: o amor pela mulher e o amor pela terra. É importante observar, de início, que ambas estas coisas estavam intimamente associadas desde que a humanidade é humana - e até quando era pagã."

    "Agora a noção de reduzir a propriedade ao mero fruir do dinheiro é idêntica à noção de reduzir o amor ao simples gozo do sexo. Em ambos os casos, um prazer acidental, isolado, servil e até secreto é preterido a uma participação no grande processo criativo; até mesmo na grande criação do mundo."

    Brilhante texto.

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    Diego Silva

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